quinta-feira, 24 de março de 2011

Quando me Amei

Esse texto me toca e resolvi colocar aqui.
Beijos.


Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.

E então, pude relaxar.

Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.

Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.

Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.

Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.

Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.

Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.

Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.

Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.

Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.

Tudo isso é... Saber viver!!!

domingo, 13 de março de 2011

Fala comigo como a chuva e deixe-me ouvir - Tennesse Williams


Vamos movimentar este Blog. hhehehehe.
Estava relendo a peça e me deu uma vontade de postar pra quem ainda não leu. Eis a peça. 
Aproveitem.

Peça em um ato

(Tradução de Maria Vorhees)





personagens
Homem
Mulher
Voz de criança (nos bastidores)


CENA:
Um quarto mobiliado a oeste da Oitava Avenida no centro de Manhattam. Numa cama de abrir e fechar está deitado um homem de cuecas amarrotadas tentando despertar e seus suspiros são os de um homem que foi deitar muito bêbado. A Mulher está sentada numa cadeira de espaldar reto junto à única janela do quarto. Lá fora o céu está cinzento carregado de uma chuva que ainda não começou a cair. A Mulher está segurando um copo de água do qual ela toma pequenos goles com gestos nervosos como um passarinho bebendo água. Ambos têm rostos jovens e desolados como os rostos de crianças em países devastados pela fome. Na maneira de falar existe uma certa delicadeza, uma espécie de formalidade meiga como de duas crianças solitárias que desejam ser amigas, e no entanto têm-se a impressão que eles vivem nesta situação íntima há muito tempo e a cena que está se passando entre eles neste momento é uma repetição de cenas anteriores, tão frequentes que se tornaram patéticas pois nada mais resta do que a aceitação de uma situação inalterável entre eles, sem nenhuma esperança de mudança.


HOMEM (com voz rouca):
Que horas são? (A mulher murmura algo incompreensível). O  que, bem?

MULHER:
Domingo.

HOMEM:
Eu sei que é domingo. Você nunca dá corda no relógio.
(A mulher estica um braço magro para fora da manga do quimono de rayon rosa e velho e pega um copo de água e o peso deste parece puxá-la um pouco para a frente. O homem observa da cama, de modo ao mesmo tempo solene e carinhoso, enquanto ela bebe água. Uma música começa a tocar ao longe, hesitante, repetindo uma frase musical várias vezes, como se alguém num quarto ao lado estivesse procurando lembrar uma canção num bandolim. Às vezes uma frase é cantada em espanhol. A canção poderia ser Estrellita.)
(Começa a chover: chove e para de chover durante toda a peça. Há o barulho forte do esvoaçar de pombos passando pela janela e a voz de uma criança cantarola do lado de fora.)

A VOZ DE UMA CRIANÇA:
Chuva, chuva, vai embora!
Volta novamente num outro dia!
(O canto é repetido por outra criança em tom de zombaria.)

HOMEM (em conclusão):
Será que eu descontei o meu cheque de desemprego? (A mulher se inclina para a frente como se o peso do copo a puxasse; coloca-o no parapeito de janela com um pequeno barulho que parece assustá-la. Ela começa a rir sem fôlego por um momento. O homem continua falando desanimado.) Eu espero não ter descontado o meu cheque. Onde está a minha roupa? Procura nos meus bolsos e vê se o cheque está comigo.
MULHER:
Você voltou quando eu tinha saído para te procurar, pegou o cheque na cama e deixou um bilhete que eu não pude entender.

HOMEM:
Você não entendeu o bilhete?

MULHER:
Somente um número de telefone, eu telefonei mas o barulho era tanto que não pude escutar coisa alguma.

HOMEM:
Barulho? Aqui?

MULHER:
Não, barulho lá.

HOMEM:
Aonde lá?

MULHER:
Eu não sei. Alguém disse “vem pra cá” e desligou e tudo que eu consegui depois foi um sinal de ocupado.

HOMEM:
Quando eu acordei eu estava numa banheira cheia de cubos de gelo derretendo e cerveja Miller’s High Life. Minha pele estava azul. Eu estava respirando com dificuldade numa banheira cheia de cubos de gelo. Era perto de um rio, mas não sei se era o East ou o Hudson. As pessoas fazem coisas horríveis quando alguém está inconsciente nesta cidade. Eu estou todo dolorido, como se tivessem me dado pontapés escada abaixo, não como se eu tivesse caído, mas como se tivesse sido chutado. Eu me lembro de uma vez que rasparam todo o meu cabelo. Outra vez me enfiaram numa lata de lixo, em um beco e eu acordei com cortes e queimaduras no meu corpo. Gente má abusa de você quando você está inconsciente. Quando eu acordei estava despido numa banheira cheia de cubos de gelo que derretiam. Eu me arrastei pra fora da banheira, fui para a sala e alguém estava saindo pela outra porta quando eu entrei e, eu abri a porta e ouvi a porta de um elevador fechando e vi as portas de um corredor de hotel. A TV estava ligada e havia um disco tocando ao mesmo tempo; a sala estava cheia de carrinhos de chá carregados de coisas da copa, presuntos inteiros, perus inteiros, sanduíches de três andares já velhos e ficando duros, e garrafas, garrafas e mais garrafas de todos os tipos de bebidas que ainda nem tinham sido abertas, e baldes de gelo derretendo... Alguém fechou uma porta quando eu entrei... (A mulher bebe água). Quando eu entrei alguém estava saindo. Eu ouvi a porta de um elevador fechar... (A mulher pousa o copo). Tudo espalhado pelo chão daquele quarto perto do rio, coisas, roupas por todo lado... (A mulher se assusta quando pombos passam voando pela janela aberta.) Soutiens! Calcinhas! Camisas, gravatas, meias - e outras coisas...

MULHER (baixinho):
Roupas?

HOMEM:
Sim, todo tipo de coisas pessoais e vidro quebrado e móveis derrubados, como se estivesse acontecendo uma briga do tipo vale-tudo na rua e a polícia tivesse dado uma batida policial.

MULHER:
Oh.

HOMEM:
Deve ter havido violência naquele - lugar...

MULHER:
E você estava - ?

HOMEM:
Na banheira - gelado...

MULHER:
Oh...

HOMEM:
E eu me recordo de pegar o telefone para perguntar o nome do hotel, mas não me lembro se eles me disseram ou não. Me dá um gole de água. (Os dois se levantam e se encontram no meio do quarto. O copo é passado de um para o outro com seriedade. Ele começa a bochechar olhando fixamente para ela, e cruza para cuspir a água pela janela. Depois ele volta ao centro do quarto e devolve o copo para ela. Ela toma um pouco de água. Ele coloca os dedos de modo carinhoso sobre o longo pescoço dela.) Agora recitei a ladainha de minhas tristezas. (Pausa: o bandolim é ouvido). O que você tem para me contar? Diga-me um pouco do que está se passando dentro do - (Os dedos dele passam sobre a testa e os olhos dela. Ela fecha os olhos e levanta a mão no ar como se fosse tocá-lo. Ele pega a mão e examina de cima pra baixo, depois beija os dedos dela apertando-os contra seus lábios. Quando ele solta os dedos, ela toca seu peito magro e liso como de uma criança e depois toca seus lábios. Ele levanta a mão e deixa que seus dedos deslizem pelo pescoço dela e pela abertura do quimono enquanto o bandolim toca com mais força. Ela se volta para ele e se encosta nele curvando o pescoço sobre os ombros dele e ele corre os dedos pela curva do pescoço dela e diz...) Faz tanto tempo que não estamos juntos a não ser como dois estranhos vivendo juntos. Vamos nos reencontrar e talvez não ficaremos mais perdidos. Fala comigo! Eu estive perdido! Eu pensei em você muitas vezes porém não podia lhe telefonar, meu bem. Pensei em você o tempo todo mas não podia telefonar. O que eu poderia dizer se telefonasse? Poderia dizer, estou perdido? Perdido nesta cidade? Jogado de um lado para o outro entre o povo como um cartão postal sujo? - E depois de desligar o telefone... Eu estou perdido nesta - cidade...

MULHER:
A única coisa que botei na boca desde que você saiu foi água! (Ela diz isto quase que alegre sorrindo. O Homem a abraça com desespero com um grito suave e chocado.) - Nada a não ser café instantâneo até que acabou e água. (Ela ri convulsivamente).

HOMEM:
Você pode falar comigo, bem? Você pode falar comigo agora!

MULHER:
Sim!

HOMEM:
Então fala comigo como se fosse a chuva e me deixa ouvir, me deixa deitar aqui e - ouvir... (Ele cai pra trás atravessado na cama, vira-se sobre o estômago com um braço caindo do lado da cama e às vezes batendo um ritmo no chão com os dedos da mão fechada. O bandolim continua.) Faz tanto tempo - que não nos entendemos. Agora me conta as coisas. O que você tem pensado em silêncio? - Enquanto eu era jogado de um lado para outro nesta cidade como se fosse um cartão postal sujo... Me conta, fala comigo como se fosse a chuva e eu ficarei deitado aqui e ouvirei.

MULHER:
Eu...

HOMEM:
Você tem que falar, é necessário! Eu preciso saber, por isso fala comigo como a chuva e eu ficarei deitado aqui e ouvirei, eu ficarei deitado aqui e...

MULHER:
Eu quero ir embora.

HOMEM:
Você quer?

MULHER:
Sozinha! (Ela volta para a janela). -- Eu me registrarei sob um nome falso num pequeno hotel na costa...

HOMEM:
Que nome?

MULHER:
Anna - Jones... A arrumadeira será uma pequena velhinha que tem um neto e ela fala sobre ele.. eu sentarei numa cadeira enquanto a velhinha faz a cama, meus braços cairão - dos lados da cadeira, e - a voz dela será - tranqüila... Ela me contará o que o neto comeu no almoço! - mingau de tapioca... (A mulher senta-se perto da janela e toma pequenos goles de água.) - O quarto estará na penumbra, fresco, e cheio de murmúrio da...

HOMEM:
Chuva?

MULHER:
Sim. Chuva. A ansiedade desaparecerá.

HOMEM:
Sim...

MULHER:
Depois de algum tempo a velhinha dirá, sua cama está feita, Senhorita, e eu direi - Obrigada... Tire um dólar da minha carteira para você. A porta fechará. E eu ficarei sozinha novamente. As janelas serão altas com venezianas azuis e será a estação da chuva... Minha vida será como o quarto, fresco - cheia de sombra fresca e - do murmúrio da...

HOMEM:
Chuva...

MULHER:
Eu receberei um cheque pelo correio toda semana no qual eu possa confiar. A pequena velhinha irá ao banco descontar meu cheque e me trará livros da biblioteca e pegará - minha roupa lavada... Eu sempre terei coisas limpas! - Eu me vestirei de branco. Eu nunca serei muito forte nem terei muita energia, porém depois de algum tempo terei energia suficiente para andar na - calçada - para passear na praia sem esforço... À noite eu passearei na calçada junto à praia. Eu terei um certo lugar onde me sentarei, um pouco afastada do pavilhão onde a banda toca as músicas de Victor Herbert ao anoitecer... Eu terei um quarto grande com venezianas na janela. Haverá uma estação de chuva, chuva, chuva. E eu estarei tão cansada de uma vida passada na cidade que eu não me importarei de ficar apenas ouvindo a chuva. Eu ficarei tão quieta. As rugas desaparecerão do meu rosto. Meus olhos não ficarão mais inflamados. Eu não terei amigos. Eu nem sequer terei conhecidos. Quando eu ficar com sono, andarei devagarzinho de volta para o pequeno hotel. O empregado dirá, Boa Noite, Senhorita Jones, e eu apenas sorrirei e pegarei minhas chaves. Eu nunca olharei um jornal ou escutarei o rádio; eu não terei a menor idéia do que está acontecendo no mundo. Eu não terei consciência da passagem do tempo... Um dia eu me olharei no espelho e notarei que meus cabelos começam a embranquecer e pela primeira vez terei consciência de estar vivendo neste pequeno hotel sob um nome falso, sem amigos ou conhecidos de qualquer tipo por vinte e cinco anos. Isto vai me surpreender um pouco mas não me incomodará nem um pouco. Eu ficarei contente que o tempo tenha passado tão facilmente assim. De vez em quando eu talvez vá ao cinema. Sentarei nas filas de trás, com toda a escuridão ao meu redor e, ficarei sentada com as pessoas imóveis ao meu lado sem tomarem conhecimento da minha presença. Olhando a tela. Pessoas imaginárias. Pessoas das estórias. Lerei grandes livros e os diários de escritores mortos. Eu me sentirei mais próxima deles do que das pessoas que conheci antes de ter me retirado do mundo. Esta minha amizade com poetas mortos será doce e refrescante, porque não terei que tocá-los ou responder suas perguntas. Eles falarão comigo sem esperar minhas respostas. E ficarei sonolenta ouvindo suas vozes explicando os mistérios pra mim. Dormirei com o livro ainda entre os dedos, e choverá. Acordarei e ouvirei a chuva e tornarei a dormir. Uma estação de chuva, chuva, chuva... Então um dia, quando estiver fechado um livro ou voltado sozinha do cinema para casa às onze horas da noite – Olharei no espelho e verei que meu cabelo ficou branco. Branco, completamente branco. Tão branco quanto a espuma das ondas. (Ela se levanta e anda pelo quarto enquanto continua a falar...-) Passarei as mãos pelo meu corpo e sentirei o quanto fiquei leve e magra. Oh, como estarei magra. Quase transparente. Quase irreal. Então compreenderei, saberei, de modo vago, que estava morando neste pequeno hotel, sem nenhuma relação social, responsabilidade, ansiedades ou perturbações de qualquer tipo – por quase cinqüenta anos. Meio século. Praticamente uma vida inteira. Nem sequer me lembrarei dos nomes das pessoas que conhecia antes de vir para cá, nem da sensação de ser alguém esperando por alguém que – talvez não venha... Então saberei – olhando no espelho – que pela primeira vez chegou o momento de andar sozinha mais uma vez na calçada com o vento forte batendo em mim, o vento limpo e branco que vem do princípio do mundo, ainda mais além do que isto, vem do princípio do espaço, ainda mais além de qualquer coisa que haja além do princípio do espaço... (Ela senta novamente sem muita firmeza perto da janela.) – Então sairei e andarei pela calçada. Andarei sozinha e serei empurrada pelo vento e ficarei pequenina, pequenina.

HOMEM:
Amorzinho. Vem para a cama

MULHER:
Pequena, pequena, pequena e mais pequenina e pequenina! (Ele atravessa o quarto indo em sua direção e a levanta à força.) – Até que finalmente não teria mais corpo e o vento viesse me tomar em seus braços brancos e refrescantes para sempre, e me levasse embora!

HOMEM: (ele aperta a boca contra o pescoço dela.)
Vem para a cama comigo!

MULHER:
Quero ir embora, quero ir embora! (Ele a solta e ela volta ao centro do quarto soluçando descontroladamente. Ela senta na cama. Ele suspira e se debruça na janela, as luzes piscando além dele, a chuva caindo mais forte. A mulher treme de frio e cruza os braços contra o peito. Seus soluços morrem mas ela respira com dificuldade. A luz pisca e ouve-se o vento frio. O homem continua debruçado na janela. Finalmente ela fala com ele suavemente...) Volta para a cama. Volta para a cama, meu bem... (Ele vira o rosto para ela com uma expressão perdida e...)

A CORTINA CAI.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Caleidoscópio

Legal, Cassius, vc sempre à frente... vou tentar me conectar, hehe! Tenho lido um bilhão de coisas interessantes e as idéias parecem estar se encontrando como em uma colcha de retalhos. Vou aos poucos compartilhando com o grupo e quem sabe nesses pequenos instantes de inspiração ouvimos cair mais algumas fichas.

Caleidoscópio (Ostra Feliz não faz Pérola, pags.12 e 13)

O caleidoscópio nasceu na Inglaterra, nos primeiros anos do século passado. (...) Deve ter sido num momento de vagabundagem que a idéia do caleidoscópio apareceu na cabeça de Sir David Brewster. Como era homem culto e conhecia o grego antigo, uniu as palavras gregas kalos (=belo), eidos (=imagem) e scopéo (=vejo). Caleidoscópio quer dizer "vejo belas imagens". As belas imagens do caleidoscópio se fazem com caquinhos de vidro, clipes, tachinhas, pedrinhas. O mesmo acontece com os artistas. Eles tem a capacidade de produzir o belo com o insignificante.

Segundo o próprio autor, "esse livro está cheio de caquinhos que podem, eventualmente, produzir belas imagens".

Fica a dica de leitura, já que Rubem Alves (definitivamente) cruzou o nosso caminho ;)

terça-feira, 8 de março de 2011

A solidão amiga


Pra começar o Blog acho interessante colocar o texto que o Luiz levou.

A Solidão Amiga
de Ruben Alves


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Correio Popular, 30/06/2002)